Mulheres contam sobre a experiência de estar no controle da gravidez e do parto

*Todas as imagens desta matérias foram feitas pela fotógrafa Lorena Vinturini, que realiza fotos e gestantes e partos humanizados. Nenhuma das mulherEs fotografadas são fontes, mas todas cederam o direito de imagem à publicação.

Amanhã é uma data importante para as mulheres. O motivo é a celebração do Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna. As efemérides chamam atenção para as políticas públicas que ajudam a garantir qualidade de vida e condições médicas para as gestantes. O direito ao parto humanizado está dentro dessas práticas. Mas o que vem a ser isso?

“Não se trata de um tipo de parto, mas, sim, de suas características. É o respeito à mulher e à família em formação”. A definição é da página do Ministério da Saúde no Facebook.

Foto: Lorena Vinturuni/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturuni/Divulgação)

De acordo com a obstetra Marilena Pereira, o “parto humanizado é uma forma de enxergar a gestação, o trabalho de parto, e isso passa por muitas questões”. Ela afirma que trata-se de uma mudança de paradigmas com relação à obstetrícia tradicional. “É compreender que a gestação é um processo fisiológico, não patologizar, fragilizar ou medicalizar”, continua a médica.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

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Ao contrário do que se pode pensar, o parto humanizado não é novidade. Segundo Marilena, com o avanço da ciência e da tecnologia, a mulher foi deixando de se perceber capaz de gestar e parir sem um terceiro. Ela conta que esse resgate da prática coloca novamente a mulher como protagonista da gestação, do parto e do pós-parto – com a assistência de profissionais de saúde.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

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Protagonismo
No parto humanizado, a mulher sabe o que é melhor para ela e para o bebê. Foi assim com a jornalista Gabriela de Paula, que tinha uma única certeza: queria parto natural. Por isso buscou uma obstetra que pudesse  conduzir para que isso acontecesse. “Disse que precisava de um médico que eu confiasse e que queria parto normal, com o mínimo de intervenção possível”, lembra. Além da médica, o pré-natal contou com a ajuda de um enfermeiro e uma terapeuta.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

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Gabriela diz que a gravidez foi tranquila. “Com Francisco (o filho) encaixado, fiz balé clássico, pilates e, cerca de um mês antes do nascimento, descobri que ele tinha um problema no coração”, rememora. O risco à saúde do garoto poderia fazer com que o parto fosse cesariano. No entanto, a obstetra e a cardiopediatra consultadas asseguraram que o nascimento poderia ser natural. E foi.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

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A bolsa rompeu e Gabriela, em vez de correr para o hospital, contou com a assistência em casa e esperou a dilatação uterina ser suficiente para o bebê nascer. Evitou oito horas de hospital. “Tomei banho ouvindo a playlist que eu tinha feito. Quando chegamos no hospital, a dilatação estava em oito centímetros”, conta.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

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Mesmo a anestesia só foi aplicada quando ela quis e numa dose que a deu consciência de tudo. “Continuei sentindo as contrações, com a dor mais  controlada. Me trouxeram um banquinho. Sentei, não consegui levantar e ele nasceu ali”, conta. “Veio sem ninguém ajudar, apenas apararam, colocaram em meu colo e levaram para a UTI neonatal”, diz. Por conta do coração, ele precisou ficar 16 dias no hospital.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Os defensores do parto humanizado dizem que o nascimento pela vagina é fisiológico. No entanto, às vezes, a cesariana é necessária. Mas Marilena lembra que só deve ser proposta em caso de real necessidade: “É uma cirurgia. É preciso que a mulher tenha informações verdadeiras. No entanto, é possível fazer da cesárea um processo respeitoso”.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Cesárea humanizada
“Digo que meu parto foi humanizado, mesmo sendo cesárea, porque nada foi imposto, tudo foi conversado”, lembra a fisioterapeuta Ana Letícia Ribeiro. “Não quis ver nada porque morria de medo e estava nervosa. Pedi para relocar alguns equipamentos que me incomodavam e fizeram sem reclamar”, conta.

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Ana diz que o seu filho não passou por aspiração, mamou na primeira hora e foi para o quarto com ela. “Todos foram amáveis, da internação à alta. O que podia ser traumático se tornou agradável”, lembra. “Conheço casos de partos naturais, mas nada humanizados. Foi o caso de uma prima minha. A equipe forçou o parto normal e ela quase perdeu o bebê. Foi humilhada e ignorada pela equipe”, relata.

A fotografia de parto é a oportunidade que a família tem de reviver a história daquele dia,  poder retornar aos primeiros momentos de vida daquele bebê,diz Lorena Vinturini, fotógrafa responsável pelas imagens feitas ao longo dos seus três anos de trabalho.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Sem violência
De acordo com o Ministério da Saúde “esse tipo de violência pode ser física e psicológica e atinge boa parte das mulheres e bebês no país”. Segundo uma pesquisa de 2010 da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc, uma em cada quatro mulheres era atingida.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Além de física e psicológica, a violência pode ser verbal, simbólica e/ou sexual, de negligência, discriminação e condutas excessivas ou desaconselhadas. São práticas como lavagem intestinal, corte no canal vaginal, restrição de dieta, ameaças, omissão de informações, não permitir o acompanhante e não oferecer alívio da dor.

Mulheres que passem por esses constrangimentos podem denunciar ao próprio estabelecimento, à secretaria municipal/estadual, aos conselhos de classe (CRM para médico e Coren para enfermeiro ou técnico) ou ligar 180 ou Disque Saúde 136.

Foto: Lorena Vinturini/Divulgação

(Foto: Lorena Vinturini/Divulgação)

Transformação
A publicitária Viviane Nascimento transformou a dor do parto em força para ajudar outras mulheres: virou doula. “Sofri diversas violências obstétricas, percebi que ter uma pessoa me fazendo companhia me daria conforto e seria uma barreira para essas violências”, opina. Doula “é uma palavra que significa ‘mulher que serve’. Ela está ali para auxiliar a nova mãe. Tem papel de informar questões fisiológicas e legais”, aponta a profissional.

Quem passa pela experiência conta que não se arrepende. “Não mudaria uma vírgula de meu parto”, diz Gabriela. Ela aposta que, no futuro, os partos serão mais humanizados. “Os próximos obstetras vão aprender esse jeito de acolher e tratar o paciente”, conclui.

Fonte: Jornal Correio*